terça-feira, 7 de junho de 2016

Trovas de Mariinha Mota



Vede: o rio de ondas de ouro,
vindo de plagas amenas,
foi no próprio nascedouro
um fiozinho de água apenas...

Nunca tente amaldiçoar
todo o vozerio alheio.
De gente má a gritar
o nosso mundo está cheio.

Se guardaste com esperança
muitas riquezas humanas,
reparte tua abastança
aos que gelam nas choupanas.

Aproxima-te do bem,
procura-o com decisão,
e verás fulgir, além,
a suprema perfeição

Sempre, em tudo, o morticínio
vê o homem bruto, em ânsia.
Tendência para o extermínio
é suprema ignorância.

Sempre que o véu da tristeza
ensombrar teu coração,
repare quanta beleza
tens, ao alcance da mão.

Reparte, com amizade,
a prece, a comida, as vestes.
São juros da eternidade.
São dividendos celestes.

Os laços indestrutíveis,
que reúnem corações,
são, geralmente, invisíveis:
nascem só das emoções!

A bondade é flor que encerra,
no mundo, o maior troféu,
daqueles que, aqui na Terra,
vivem voltados pro Céu.

Nasceu na Terra a Bondade,
por ordem do Criador.
Tem por mãe a Caridade
e tem como pai o Amor.

Eu procuro, com freqüência,
desparzir o bem, a luz.
Sei que o fruto dá notícia
da árvore que o produz.

Sonhei que era uma princesa
morena, uma flor do céu!
Você surgiu, que beleza,
com seus cabelos de mel!

Cheio de aurora, ofuscante,
o meu coração o vê.
Não sei o que é mais brilhante:
se é o Sol ou você.

Quando vejo um passarinho
voltando para o seu ninho,
sinto uma dor muito aguda:
saudade do meu filhinho.

Vi, agora, um beija-flor
beijando uma linda rosa!
Lembrei-me, com grande dor,
do meu filhinho, tão prosa!

Quero ser tua esperança,
ser tua prece e teu sorriso,
teu momento de bonança,
o teu céu, teu paraíso!

A diferença do olhar,
do homem que ama de verdade,
é como a brisa do mar
logo após a tempestade...

Mesmo a rosa mais bonita
de todas que a gente vê,
mesmo a bondade infinita,
nada se iguala a VOCÊ!

No mesmo abrigo do galho
onde a abelha tira o mel,
a víbora, em seu trabalho
fabrica peçonha e fel.

É no abrigo dos teus braços
que eu encontro, compassiva,
na febre dos meus cansaços,
uma fonte de água-viva.

Enche os teus dias no mundo
na construção do dever...
Há sempre um tormento fundo
no instante do entardecer...

Em nossa rota perdida
no mundo que só reclama,
recordemos que, na vida,
mil flores nascem na lama.

De partilhar com irmãos
tua alma simples e boa,
semeias entre cristãos
a fé que salva e Perdoa.

Como a hera sobre o muro,
teimosa a agarrar-se, então,
é a saudade, nó escuro,
atado em meu coração.

Esse amor ao nosso lado
é a canção que a vida tece,
é o lindo empíreo estrelado,
é a leira farta da messe.

Distante do coração
há perenes primaveras
refulgentes na amplidão,
pelos édens sem quimeras.

Se o próximo faz-se mudo,
não guardes mágoa ou receio,
pois o pouco é quase tudo
quando o amor está no meio.

Ao acordar, de manhã,
sinto-me leve, feliz,
pois lembro que sou irmã
de São Francisco de Assis.

Como é bom sentir o vento,
ver árvores generosas,
ver astros no firmamento,
ouvir canções, ver as rosas!

Meu amigo, pára e pensa
nestes dons que Deus te empresta:
a visão, o sonho, a crença,
toda a natureza em festa!

Lindos pomos tentadores
da macieira que domina;
antes de ser seiva e cores
foi semente pequenina!

Há tanta gente vibrando
para que a vida me vença
que, às vezes, fico pensando:
Ah! se não fosse esta crença...

Está você, noite e dia,
dia e noite em meu sonhar;
sonhar que é a minha alegria
e também é o meu penar.

Os crimes que mais me aterram
não são os de morte, não,
mas aqueles que soterram
toda a paz do coração.

Quando ajudarmos alguém,
não devemos vacilar,
pois todos sabem que o bem
protege sem perguntar.

Terá sempre triste sina
quem cultiva a displicência.
Considero a disciplina
toda a alma da eficiência.

Desprezo sem condição
pelo cultivo da terra,
constitui malversação
dos bens que Deus nos descerra.

O respeito à Criação
constitui simples dever;
os abates, queimas, são
atraso moral do ser.

A conversa que incrimina,
palavras de pouca monta,
são verbos sem disciplina
que geram males sem conta.

Recebe de alma serena
todo golpe que te doa;
opõe, à voz que condena,
a tua paz serena e boa!

Agradeço, a alma em prece:
o lar, a saúde, o pão,
a Inspiração que me aquece,
cantando de gratidão!

Acende a luz da bondade
nas lutas do dia-a-dia;
ninguém sabe se em verdade
mendigarás simpatia.

Mesmo a rosa mais bonita,
de todas que a gente vê,
mesmo a bondade infinita,
nada se iguala a você!

As trovas, como são belas
como prendas de ouro e luz!
E, por serem tão singelas,
lembram o Verbo de JESUS!

Meu amor, quantas riquezas
eu guardo em meu coração!
Mas entre estas mil grandezas
você é o melhor quinhão!

Enquanto eu tiver certeza
de que me amas com emoção,
viverei sem ter tristeza,
cantando de gratidão!

Cheio de aurora, ofuscante,
o meu coração o vê.
Não sei quem é mais brilhante,
se é o Sol ou se é você.

Se você soubesse, amor,
que eu vivo do seu sorriso,
veria que em cada flor
há um pouco de Paraíso.

No Ideal que é o nosso escudo
buscamos, na vida afora,
uma síntese de tudo
na perfeição que em Deus mora.

Nós semeamos e colhemos
na vida - solo de luz;
ajudando saberemos
que a bondade reproduz.

Sei que o amor não é paixão
nem o nomeio por tal,
ele é celeste atração,
prescinde do amor carnal.

O Cristão não pode odiar
a quem lhe faz mal profundo,
o seu lema é: "Crer e Amar",
servindo a Cristo no mundo.

Dos mil ódios inquietantes
que a vida me trouxe, um dia,
eu extraio, desafiantes,
esperanças e alegrias.

Serenidade não é
jardim de dias dourados;
é suprimento de fé
para os dias perturbados.

A natureza é santuário
no qual se torna visível
de Deus o itinerário
mostrando sapiência incrível.

Nenhum mal me faz ferida
no sofrer de cada dia.
Já recebi, desta vida,
minha carta de alforria.

"Vida Afora"
Mariinha Mota

Só Criancinhas



Um grande industrial, milionário, cansado
dos imensos trabalhos que tinha o ano inteiro,
costumava passar as férias, sossegado,
em cidades balneárias ou no estrangeiro.

Uma vez, entretanto, foi passar uns dias
numa cidadezinha humilde e modesta,
ficando à beira-mar, nas manhãs menos frias
à tarde aproveitando pra fazer sua sesta.

E ali, observava os duros labores
dos homens que do mar tiravam seu sustento,
vendo tristes mendigos, pobres pescadores
que, então, viviam em rude, agreste sofrimento.

Tentou aproximar-se de um dos caiçaras
e com ele iniciou uma conversação;
verificou tratar-se de um homem que em raras
vezes já desfrutara a civilização.

O rapaz respondia às perguntas, somente,
por duros monossilabos, esperançoso
que o aborrecido intruso fosse logo em frente,
não espantando os peixes que aguardava ansioso.

Em um dado momento indaga-lhe o ricaço:
- Escute, moço, diga-me se, porventura,
aqui onde só vejo lutas e fracasso,
nasceu um grande homem de desenvoltura?

E o humilde caiçara, sem pestanejar,
respondeu, firmemente, sem fazer gracinhas:
- Que eu ficasse sabendo aqui neste lugar
tem só nascido mesmo, muitas criancinhas...

Mariinha Mota